terça-feira, 23 de agosto de 2016

Josoaldo Lima Rêgo




Josoaldo Lima Rêgo é um poeta brasileiro, nascido em Coelho Neto, Maranhão, em 1979. Publicou os livros de poemas Carcaça (2016), Motim (2015), Máquina de filmar (2014), Variações do mar (2012) e Paisagens possíveis (2010), todos pela 7Letras, além do estudo Cosmovisão e modernidade – Sousândrade e a formação do campo visual em O Guesa. Vive em trânsito.

--- Reuben da Rocha

§

POEMAS DE JOSOALDO LIMA RÊGO


Jauára Ichê

O mundo não acaba em tuas mãos
A borda da dobra é frouxa
Da Anatólia vês o Piauí
Do Pantanal, a Antuérpia

§

Nos Baixões de Altamira

em altamira/pa
raimundo nonato decide
matar o tempo:
dança no escuro
e arranca 4 dentes à foice
sem paz
ao som duma turbine
de hidroelétrica

§

Mar

A densidade da floresta
desaparece no mar
É o que pode desidratar sonhos
A salvação por distâncias

§

Nômade

cabeça aberta
exposta na rua
quando a língua abre
o osso quando é de sal
a casa

§

Inversões

1

chove
e é apenas a pior
solução

depois é seco – quase
igual ao mar
quando nasce

2

tentou a imagem
da cabeça plana
não reconheceu
a terra – a gravidade
da forma

3

procurar o chão
à maneira das pedras

4

o canto da boca semiaberta
diz conhecer o mundo
quase grego, circular
sobreposto ao ocidente

diz península maré ilha
ou
o horizonte fede muito

5

é o modo como a guerra acaba
“legítima”
cantada por aedos
ou exposta na tv

6

a fluidez da vida
no sopé do muro
exposta
ou inventada
numa fotografia aérea
[mesmo antes
de qualquer navegador
genovês]

o golpe é sempre o centro
da forma
do tempo pensado
e desilusão

7

conviver com o terror,
repetir o terror. dois gritos
do fausto alemão berlinense
delirante com falta de ar. Um
naturalista não delira à toa
a paisagem ideal é
ígnea

8

esvaziar o circo
cuidar dos negócios

9

O risco, a lama
Alguns ícones
nascem do chão

(de Carcaça)

§

Felizes juntos

mais tarde sorriremos de tudo
quando a história for contada por um estranho
que sonha estar num matadouro
a sussurrar as últimas palavras no ouvido da vítima:
felizes juntos

§

Iñárritu

As coisas podem soar mais violentas
quando nascemos latino-americanos
Sobressaem com o tempo: o dente chicano
e uma fronteira terrível perto do olho
Um corpo desterrado

(de Máquina de filmar)

§

Chinelos caídos

Esquálida, olhos voltados para o corpo.
Vontade social para certos temas.

Ela trepava por compromisso político:
Aleijados, deprimidos e desempregados.

Talvez acreditasse na transformação do mundo.
O gozo, a estátua no canto do quarto:
– daqui por diante, nunca mais a fantasia
de que impossíveis gestos podem ser

a magia necessária para estações dégradés.

§

Açúcar

livrei-me do perigo

nasci no maranhão na era das migrações

e escapei impune dos canaviais de são paulo

escapei do corte da cana mais dura
                    (de potência da sacarose da cana
tratada em laboratório)

por descuido não peguei o trem fantasma
                    na belém-brasília
não enfiaram-me num albergue de beira de Estrada
pago pelo gato da fazenda

envelheci sem conhecer aquela prostituta
paranaense
                    fodida por dez reais
                    pagos pelo gato da fazenda
agora deixo escorrer como memória
do que poderia ter sido

a cachaça em copo sujo

na dívida antes do trabalho

o trabalho manual nos canaviais
donde escapei como quem escapa
             do perigo
sem explicação

por quem choram as casuarinas

Quando o poeta Bandeira Tribuzi morreu,
seu amigo, ex-presidente da República,
dedicou-lhe um artigo de jornal
Deparei-me com o artigo
anos antes de ser escrito
numa antologia de poemas

Quando o cineasta Glauber Rocha morreu,
seu amigo, ex-governador do Maranhão,
dedicou-lhe uma homenagem

Vi a morte de Glauber antes
num poema de Gullar

– mesmo antes de nascer o poema
pois Gullar estava à espera

daquele ônibus Rio Comprido-Leblon

Nos dias que antecederam a possível visita
de D. Pedro II aos gordurosos de Alcântara
muitos doces e licores foram preparados
Estavam todos lá, os frescos licores
os doces em compotas. Experimentei
na cozinha, nos porões de um casarão
tempos depois. Foi quando soube
que o Imperador não andaria
sobre aquelas ruas retilíneas

Tudo está escrito impunemente

No Maranhão, no Brasil, na América do Sul
Talvez por falta de um bom roteiro

ou de uma antologia que faça chorar as casuarinas
resta, de tudo, a imagem de loucos e doentes

com seus guarda-chuvas

nas escadarias da Igreja do Carmo

§

Boudelairevasé

Teus eixos espaciais

talvez sejam Cabos da Boa-Esperança.

As noites um único detalhe,

como descrição da nossa estirpe de origem.
A cidade, a viagem,

temas poéticos

encontrados na Ilha da Reunião.

Tormenta é apenas volume

do rádio trivial de sintonia Negra.

§

Ecologia íntima

Planta tua cara verde musgo

Enfia o corpo num buraco

Deixa nascer galhos pousar pássaros
Os braços como duas grandes folhas
As pernas bebendo água

Cabeça solta olhos fixos

Cu pra não caber uma palavra
Planta tuas raízes rasas no calcário

(de Paisagens possíveis)

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segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Dois poemas de "A metáfora mais gentil do mundo gentil", de Carla Diacov

A metáfora mais gentil do mundo gentil é o novo livro de Carla Diacov, sendo lançado esta semana pela Edições Macondo. Apresentamos abaixo dois poemas do livro.




Aspirinas

vou ao banheiro
me sinto estranha
verifico minhas veias minhas varrições
me sinto envergonhada
abro a torneira
meto um copo pelo aguaceiro
tomo três aspirinas
sou a mulher do filme sueco
pois que ninguém repete esse gesto no brasil
estou lá
com aspirinas pelo encanamento central
não importa a cor do banheiro
tudo é de um sempre azul esverdeado
não importa a hora
tudo é de um sempre vazio ecoando gentes
imagens para fora do evento banheiro
auto estrada sul gambás com asas
ratoeiras e cachimbo no andar de cima
gentes
me sinto acabrunhada ainda
assim a mania é lustrar o ponto pisado
com a meia cheia de patinhos
com a meia cheia de nada
nunca o par correto e me sinto atarantada
toda a janela do banheiro
toda a cortina com argolas
todas
os raios de todas as setas do ralo
os raios todo raio que vai dar em gentes
o banheiro é matemático demais para
uma idiota mal escovada
estou sonhando
resmungo estou sonhando
quero acordar que nem criança mijada
envergonhada
não estou sonhando
minhas veias estão em acordo
com o tom da nota no jornal
FUNCIONÁRIA DE LANCHONETE FAMOSA
ESFREGA O PÊNIS NO GERGELIM
E URINA NA FRITADEIRA APÓS O COMA
DE 41 ANOS
sou a sueca das aspirinas
resmungo estar meditando
é isso
resmungo estar meditando gentes
pilhas de gentes no cesto de roupas sujas

§

Canja

em expansão
o ódio o amor
ainda que nada nada
em água em expansão
um banheiro em pleno ódio
onde jaze teu rosto quando
fundo aqui um amor cheio de ódio
o banheiro no ódio
você na banca de jornais
eu a ronronar alhos curry no banheiro
ódio e preces
um banheiro para o ódio que
o ódio que se come cru
abrir um banheiro para o ódio
ao ódio tudo porque o ódio
busca toda a satisfação o gosto de tudo
você na banca de jornais
eu na briga onde espero por ti
temperos gosto receitas
um deus faria o mesmo eu sei
pois deus faria o mesmo e fez
você na banca de revistas com ornatos para interiores
um banheiro todo para o ódio que te espera
há anos
há gerações
afio os punhos empunho a faca
como cortar um ovo meu deus do céu dos interiores
enquanto o jornaleiro faz lucro faço banheiro
quem nunca
jesus maria e josé
esfaqueou uma galinha
morta na pia borrada de creme dental
não sabe o que é o ódio de um amor tão macio
suculento
quem nunca meteu alhos pelos furos na bendita
quem nunca escorregou junto do choro da baba
quem nunca se machucou num tanto amor
quem nunca morreu no banheiro cravado no ódio da espera
amor
quem nunca leu nesses olhos a manchete ordinária
quem nunca amolou um garfo nos dentes do todo ódio
tamanho banheiro em pleno ódio
preces
um banheiro na cozinha em pleno ódio amor
em expansão
se esse banheiro fosse um cofre
se todo meu ódio fosse esse ladrão

§ 

sobre a autora 

Carla Diacov é uma poeta brasileira nascida em São Bernardo do Campo em 1975. É formada em Teatro e possui poemas publicados em diversas revistas no Brasil e em Portugal. Amanhã alguém morre no samba, seu livro de estreia, foi publicado em Portugal, em 2015, pela Douda Correria. Ainda esse ano lançará Ninguém vai dizer que eu não disse pela mesma editora. 



O lançamento do livro ocorre no Eco - Performances poéticas, dia 25/08, a partir das 22h.

Eco - Performances poéticas | Café Muzik 
Rua Espírito Santo, 1081 - Juiz de Fora, MG

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sábado, 20 de agosto de 2016

Prisca Agustoni

A Modo de Usar & Co. apresenta aqui uma pequena seleção do trabalho poético de Prisca Agustoni, poeta suíça radicada no Brasil, organizada e apresentada por Edimilson de Almeida Pereira.



PRISCA AGUSTONI  nasceu em 1975, em Lugano, região da Suíça de língua italiana. Licenciou-se em Letras Hispânicas e Filosofia na Universidade de Genebra e obteve o título de Mestra em Gênero e Literatura pela Universidade da mesma instituição. É Doutora em Literatura Comparada pela PUC-Minas. É autora de livros infanto-juvenis e tradutora de poesia italiana, francesa e portuguesa. Publicou os livros de poesia Inventário de vozes (2001), Sorelle di fieno (2002), Días emigrantes (2004), A recusa (2009), A morsa (2010), Un ciel provisoire (2015), Hora zero (2016) e os livros de contos A neve ilícita (2006) e Cosa resta del bianco (2014). Publicou o livro de ensaios O Atlântico em movimento: signos da diáspora africana na poesia contemporânea de língua portuguesa  (2013). É professora da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora, Minas Gerais.

*

“Um olhar atento para a obra poética de Prisca Agustoni nos revela uma autora que se desloca em regiões de fronteira, seja por conta de sua condição de estrangeira ou de sua vivência num cenário linguístico denso e fragmentado, ao mesmo tempo. Esse cenário (Europa ocidental e América Latina) – atravessado pelas tensões linguísticas em português, espanhol, italiano e francês viabiliza a poética pendular de Agustoni, que não descarta a racionalização do lirismo ou a ruptura das identidades que os poetas forjam para si em seus idiomas de origem. Ao longo de seus livros, Prisca Agustoni tece uma poética que, incidindo sobre a errância e a transitoriedade do sujeito termina por desvelar o cerne de sua humanidade. Para delinear essa condição, a autora investe na reflexão para tratar as distopias do sujeito e do seu mundo como um procedimento crítico. Ou seja, onde se vislumbra para o sujeito a sombra e o abismo, a miséria e a decadência Prisca Agustoni entende esgarçar-se, e ainda sobreviver, a flor da linguagem. Não por acaso, o seu trânsito pessoal, que se realiza entre diferentes idiomas, se exprime ora como sedução (em virtude dos vários sujeitos que  podemos ser), ora  como angústia (em vista da impossibilidade de nos contentarmos com uma, dentre as tantas, personae que alimentamos). Entre a sedução e a angústia, a autora de Hora zero desenha uma obra a se considerar, uma vez que se trata de um caso raro entre autoras e autores que – dada a horizontalidade e a verticalidade de seu pensamento – não só se integram a um determinado campo literário como também transcendem essa fração cultural para se constituírem, eles mesmos, como um campo literário particular” 

(Edimilson de Almeida Pereira, poeta e ensaísta)


POEMAS DE PRISCA AGUSTONI


TRANSPARÊNCIA

A forma recolhida
dos pensamentos.
Os peixes
caídos nos olhos.
Sei a tática do medo,
uma vez apenas.
Os peixes invisíveis
costurados na pele.

Me alimento
para adivinhar
o azul dos perfis.

(Inventário de vozes, 2001)

§

NA OLIVEIRA

Para F.G.Lorca


Decidiram os outros.
Foi às quinze oliveiras.

No livro vermelho
assino o meu nome

como corpo aberto.

Os gitanos ficaram órfãos,
e foi aos quinze silêncios.

(Inventário de vozes, 2001)

§

As freiras são sentinelas.
Em seus olhos
os crucifixos e as chagas
de Cristo
(mas somos nós
que sentimos
as dobras da pele).
O ás na manga
é o guisado de feijão,
o branco de Gênova
no domingo

com o alambique
do Deutschsprechen, bitte.

*

A era das castanhas assadas
molda o frio
Nos quartos sem incenso.
Depois de amanhã iremos
a Einsideln para ver
a virgem negra.
Então pungiremos
os ossos com a ausência de Deus,
desarmando
o arsenal dos pai-nossos.

(Irmãs de feno – 2002)

§

PESADELO


Fique atento
você que ocupará
o passado:
evite de todo modo
as rasuras.
Porque há alguém
de malas vazias
pendurado no teto

e que, às vezes,
desce com a noite.

(A morsa – 2010)

§

FENDA


Após a iniciação
quem viveu
ombro a ombro
se torna carteiro sem cartas,
flor violenta          ferida.
A saliva abisma-se
no espaço vazio
da costela,

lá onde ainda dói.

(A morsa – 2010)

§

AS DUNAS


Ao longo do lago
há dunas
que se deslocam
com os olhares
de quem faz muito
vive algures,
num transitório
perímetro,
desativando
gramáticas,
curto-circuitos
que cavam
depósitos de coisas
na hesitação
entre uma língua e outra.

(A morsa – 2010)

§

PONT DE LA MACHINE


Após a chuva
seus cabelos viraram asas.
Não sei por quê
vivi uma longa noite
aberta sobre suas alucinações.

(A morsa – 2010)

§

sobram esses corpos

crus
brilhantes

que não podemos apalpar
indagando os retratos

:  deste delicado espólio
salvaríamos tão só os restos:

algum fragmento de sílaba

(os morangos na boca)

e sobretudo os olhos
a roçar o desejo

solidão adentro

(A recusa – 2009)

§

ESQUINA


La pasión desborda
las esquinas.

Aquí una botella
para los santos
que cuidan
de las floraciones.

Allá um hombre
espanta la mordedura
reformando su cuarto
de cartón.

  (días emigrantes – 2004)

§

Venivano, credo, dalla Polonia
erano orfani, dicevano
giovani orfani d’Europa

Tata li nascose nei granai
come semi in naftalina
perché la fioritura
potesse avvenire all’ora della resa

ma furono fiori inceneriti
a spuntare quell’anno
sulle alpi.

Se ne andarono ad aprile,
forse fecero ritorno
al loro paese sgozzato
da angeli impazziti.

(sparsa memoria – 2012)

§

(pour Unica Zürn)


J’arrache l’écorce de ton absence
et je lèche les zones blessées du désir,
ma salive comme une gaze ou suture
elle apaise ton poison, néamoins
je les lèche avec une langue
dont on a peur de perdre le sens,
mais qui fêle, malgré tout, l’attente.


(un ciel provisoire – 2015)

§

Enquanto apalpam
rendas e sutiãs
na terceira gaveta
sinto-as descer
ávidas, as mãos
ao longo do corpo –
até que apaga-se
a vontade
e jogam-me no chão

boneca, cuja mola quebrou



(Hora Zero – 2016)


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quinta-feira, 18 de agosto de 2016

R. D. Laing (1927 - 1989)


Ronald David Laing, melhor conhecido como R. D. Laing, foi um escritor e psiquiatra escocês, nascido em um distrito de Glasgow em 1927, com trabalhos importantes no estudo das psicoses, e um pensador conhecido da chamada Nova Esquerda Internacional e da Antipsiquiatria. Seu trabalho mais famoso neste campo é The Divided Self (1960). Sua faceta como poeta, no entanto, é conhecida por poucos. Publicou as coletâneas Knots (1970) e Sonnets (1979). Abaixo, algumas traduções inéditas do escocês, por Virna Teixeira.

--- Ricardo Domeneck

§

TEXTOS DE R. D. LAING
traduções de Virna Teixeira


Esta noite não Josefina

ELE    o que é que você quer?
ELA    faz amor comigo
ELE    você é uma
           placenta que me suga seco e me envenena
           um útero que me sufoca e me esmaga
           um cordão umbilical que me ferroa e me estrangula
           sua vagina é a entrada do inferno
           esta noite não Josefina
ELA    você apaga qualquer uma
ELE    apague a luz
ELA    apague você

:

Not tonight Josephine

HE     what do you want?
SHE   make love to me
HE     you are a
          placenta that sucks me dry and poisons me
          a womb that suffocates me and crushes me
          an umbilical cord that stings and strangles me
          your vagina is the entry to hell
          not tonight Josephine
SHE   you would put anyone off
HE     put out the light
SHE   you have to put it yourself

§

Esta noite não Édipo

ELE    que tal
ELA    assim não
ELE    eu gosto mais de você do que você de mim
ELA    é porque você é travado emocionalmente
ELE    como você descobriu isso?
ELA    você não suporta seus sentimentos
           então põe tudo no seu pênis
ELE    você tem menos tempo para mim
           do que eu tenho para você
ELA    quer dizer você quer me foder com mais frequência
           do que eu quero ser fodida
ELE    eu gosto de olhar nos seus olhos
ELA    gente madura emocionalmente não parece
           precisar olhar nos olhos do outros
           tanto e com tanta frequência como você precisa
           olhar nos meus
ELE    seu rosto é bonito na luz do fogo
ELA    sem dúvida eu faço você lembrar da sua mãe
ELE    mamãe!
ELA    esta noite não Édipo

:

Not tonight Oedipus

HE     how about it
SHE   not like that
HE     I fancy you more than you fancy me
SHE   that’s because you are emotionally blocked
HE     how do you make that out?
SHE   you can’t stand your feelings
         So you put them all into your penis
HE    you have less time for me
         Than I have for you
         SHE you mean you want to fuck me more often
         Than I want to be fucked
HE     I like looking into your eyes
SHE   emotionally mature people do not seem
          To need to look into another’s eyes
          As long and as often as you seem to need
          To look into mine
HE     your face is beautiful in the firelight
SHE    no doubt I remind you of your mother
HE      mummy!
SHE     not tonight Oedipus

§

Beijos

ELA     você ia me perguntar o que eu queria
            de presente de aniversário
ELE     Ah sim. Esqueci. O que você queria?
ELA     adivinhe
ELE     a cabeça de João Batista
ELA     não seja frívolo
ELE     o que então?
ELA     um divórcio
ELE     é muito caro
ELA     Oh querido por favor
ELE     vou ver o que eu posso fazer mas não posso prometer
ELA     prometa que vai fazer o que puder
ELE     prometo
ELA     beijos
ELE     beijos

:


Kisses

SHE     you were going to ask me what I wanted for a birthday present
HE       o yes. I forgot. What would you like?
SHE     guess
HE       the head of John the Baptist
SHE     don’t be frivolous
HE       what then?
SHE      a divorce
HE       it’s too expensive
SHE     o darling please
HE      I’ll see what I can do but I can’t
          Promise
SHE    promise you’ll do your best
HE      promise
SHE    kisses
HE      kisses

§

Eu não posso te ouvir

ELE    eu não posso te ouvir
ELA    você não tá ouvindo
ELE    estou tentando
ELA    eu te amo por tentar
ELE    eu estava tentando reconhecer que te ouvi
ELA    eu detesto ser reconhecida
ELE    tudo bem
ELA    não está tudo bem
ELE    o que não está?
ELA    você não tá ouvindo
ELE    você não tá se comunicando
ELA    o mudo falando para o surdo
ELE    é isso aí
ELA    não faça isso
ELE    não sou autorizada a concordar com você?
ELA    não é engraçado
ELE    eu nunca disse que era

:

I can’t hear you

HE     I can’t hear you
SHE   you’re not listening
HE     I’m trying
SHE   I love you for trying
HE     I was trying to acknowledge I heard you
SHE   I detest being acknowledged
HE    all right
SHE   it’s not all right
HE     what’s not?
SHE    you’re not listening
HE     you’re not communicating
SHE    the dumb speaking to the deaf
HE     there we are
SHE    don’t do that
HE     am I not allowed to agree with you?
SHE   it’s not funny
HE    I never said it was

§

Você é um mentiroso do caralho

ELA    bom e aí?
ELE    bom e aí o quê?
ELA    você fez não foi?
ELE    do que você está falando?
ELA    você sabe muito bem do que eu estou falando
ELE    se você ainda está naquilo eu já disse tudo
ELA    você fez não foi?
ELE    eu já te contei
ELA    você fez não foi?
ELE    eu não vou ser interrogado
ELA    apenas me conte a verdade
ELE    eu já te contei
ELA    quem era?
ELE    ninguém
ELA    como você é mentiroso
ELE    você disse que não tinha ciúmes
ELA    não mude de assunto
ELE    você vai continuar sobre o que? eu já te contei
ELA    eu não tô com ciúmes eu só tenho que saber
ELE    por que você tem uma mente tão desconfiada?
ELA    eu sei quem foi
ELE    você já decidiu. não há nada mais que
           eu possa dizer
ELA    você pensa que vai escapar
ELE    não há nada do que escapar
ELA    você fez eu sei
ELE    não
ELA    você bem que podia admitir
ELE    não há nada para admitir
ELA    ela mesma me contou
ELE    eu sei que você está inventando isso
ELA    ela mesma veio e me contou
ELE    por que você tem que recorrer em tais mentiras?
ELA    eu não vou deixar você destruir meu senso de
           realidade junto com tudo o mais
ELE    você está paranóica
ELA    você não vai escapar
ELE    você está a fim dela
ELA    não
ELE    você é uma lésbica inconsciente
ELA    não
ELE    você devia ver um psiquiatra
ELA    não me enrole
ELE    você tá obcecada
ELA    você fez eu sei
           (pausa)
           eu vou ligar para ela agora mesmo
           (pausa)
           você fez
           (pausa)
ELE    uma vez
ELA    como você é mentiroso
ELE    eu não gostei
ELA    Oh você é um mentiroso do caralho  

:

You’re such a fucking liar

SHE    well then?
HE     well then what?
SHE    you did didn’t you?
HE     what are you talking about?
SHE    you know perfectly well what I’m talking about
HE     if you’re still on about that I’ve said all I am going to say
SHE    you did didn’t you?
HE     I’ve already told you
SHE   you did didn’t you?
HE     I’m not going to be interrogated
SHE    just tell me the truth
HE     I’ve told you
SHE    who was it?
HE     no one
SHE    you’re such a liar
HE     you said you weren’t jealous
SHE    don’t change the subject
HE     what are going on about? I’ve already told you
SHE    I’m not jealous I only have to know
HE     why have you such a suspicious mind?
SHE    I know who it was
HE     you’ve made up your mind. There’s nothing more I can say
SHE    you think you’re going to get away with it
HE     there’s nothing to get away with
SHE    you did I know you did
HE     no
SHE    you might as well admit it
HE     there’s nothing to admit
SHE    she told me herself
HE     I know you’re making that up
SHE    she came and told me herself
HE     why do you have to resort to such lies?
SHE    I’m not going to let you destroy my sense of
          reality along everything else
HE     you are paranoid
SHE    you’re not going to get away with it
HE     you fancy her yourself
SHE    no
HE     you’re an unconscious lesbian
SHE    no
HE     you should see a psychiatrist
SHE    don’t fob me off
HE      you’re obsessed
SHE    you did I know you did
          (pause)
          I’ll phone her up right now
           (pause)
           you did
           (pause)
HE       once
SHE     you’re such a liar
HE       I didn’t enjoy it
SHE     O you’re such a fuckin liar

§

sobre a tradutora

Virna Teixeira nasceu em Fortaleza em 1971. É neurologista, mora em Londres, e faz pós-graduação em Medical Humanities no King’s College. Publicou quatro livros de poemas: Visita (7 Letras), Distância (7 Letras), Trânsitos (Lumme Editor) e A Terra do Nunca é Muito Longe (Não Edições, Portugal). Tem três títulos de tradução de poesia escocesa publicados, e edita plaquetes de poesia e tradução pela Arqueria.

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sábado, 13 de agosto de 2016

Poema e imagem inéditos de Reuben da Rocha



Na série de inéditos, poema e imagem (da série "g o v e r r o") de Reuben da Rocha (São Luís do Maranhão, 1984).



/ temporada de caça / ao índio ka’apor /
drones tele guiam / kanoés / caiapós /
varis vivos / encobrem a cova rasa
urubus farejam / temporada de caça /
/ a navalha / some / na mão do mendigo /
noite revirada / corpos caídos
estrelas brilham / mastigam lixo /
incorporo a navalha da prosódia dos
mendigos / cada narciso / come da /
própria sede / a cabeça do justo /
/ espremida contra a parede/ zumbis
azedos / maquinados / livres / vis /
sentenças / vendidas por / juízes /
/ sentenças vendidas por juízes /
/ fazendas maiores qe países /

(poema do livro ESCALDANTE, no prelo)

§


imagem da série g o v e r r o (2016)


§


§

sobre o autor

cavaloDADA vulgo Reuben da Rocha (São Luís do Maranhão, 1984) publicou os livros Miragem no olho aceso e As aventuras de cavaloDada em + realidades q canais de TV. Nos últimos meses, vem publicando em fascículos a série Siga os Sinais da Brasa Longa do Haxixe. Mais informações em sua página pessoal. Vive em São Paulo.

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sábado, 6 de agosto de 2016

Poema inédito de William Zeytounlian

Hoje na série de inéditos, poema de
William Zeytounlian (São Paulo, 1988).



FILIVS NOSTER

Filho,
dobra o ouvido
à verdade do desejo.
Se ao que almejo me perfilho,
alenta-me ver que escapo
na medida mesma
em que me existo.
E se a vida ainda te afigura lenta,
à espuma só e ao pó atenta.

Se se aguça o teu sentir,
escapa logo ao que te exijo –
longa é a demora
de ouvir os pais.
Dobra-te, filho,
à verdade do desejo:
trai-me com um beijo
e deixa que eu morra em paz.

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sobre o autor

William Zeytounlian é um poeta brasileiro, nascido em São Paulo em 1988. Estreou com o volume Diáspora (São Paulo: Selo Demônio Negro, 2015).

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quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Poema inédito de Matilde Campilho

Série de inéditos: um poema de Matilde Campilho (Lisboa, 1982)



Chapéu de palha 

Fazes-me lembrar
um filme do Rohmer
ou o toldo vermelho
do Joaquim Manuel
Quando penso em ti
eu esqueço o lixo
que de manhã faz barulho
à minha porta
Pareces-te com o tempo
das amendoeiras
Tens tudo a ver com
a escadaria semi-invisível
que o mágico escavou
no rochedo atlântico
Sim tu pareces o Verão
Às vezes quando entras
quase dá para ouvir o ruído
do motor de um jipe
Um Lada Niva por exemplo
(de cor azul)
a assapar entre a poeira
e os eucaliptos
sempre em direção à praia
Fazes lembrar a alegria
de um risco na parede
desenhado a carvão
pela criança da manhã
É no verde dos teus olhos
que eu treino a disciplina
de uma explosão sossegada
que se vai revelando devagar
ao ritmo das estações concretas
E já agora também é no amarelo
dos teus olhos que eu descanso
da guerrilha do mundo moderno
Aquele que nos fez esquecer
a gargalhada de David
quando derrotou o gigante
(mas olha há sempre um riso
ecoando lento na caverna)
Estamos aqui para vencer a dor
E teu rosto diário faz lembrar
a vitória do tempo sobre o tempo
Porque afinal de contas tu
te pareces muito com a promessa
de uma fé vagarosa & livre
Pareces a coragem, pareces a paz
Pareces mesmo a madrugada egípcia
sobre a qual voa um passarinho.


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Sobre a autora

Matilde Campilho é uma poeta portuguesa, nascida em Lisboa no ano de 1982. Estudou Literatura na capital portuguesa, e estreou com o livro Jóquei (Lisboa / São Paulo: Tinta-da-China / Editora 34, 2014).

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