Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2009

Susan Howe - "Pierce-Arrow"


A editora Lumme lançou no mês passado, com tradução de Antonio Sergio Bessa, o volume Pierce-Arrow, da poeta americana Susan Howe. Trata-se de um lançamento importante para o debate poético contemporâneo brasileiro, unindo-se ao volume A Escada de Wittgenstein, de Marjorie Perloff e tradução de Aurora Bernardini, lançado no ano passado.

Publicado originalmente em 1999, Pierce-Arrow é uma das obras de Howe em que a poeta se entrega ao trabalho de recuperação e releitura históricas de figuras do pensamento lingüístico e poético norte-americano, em especial da Nova Inglaterra, como no volume que tornou Susan Howe famosa nos Estados Unidos, My Emily Dickinson (1985). Em Pierce-Arrow, Howe relê não apenas o pensamento lingüístico de Peirce, como narra em sua poética de elipses (que mimetiza o próprio caráter elíptico da História escrita e oficial) algo das circunstâncias biográficas e sociais em que Charles Sanders Peirce produziu sua escritura de largo arco de contribuições para a filosofia, a matemática, a lógica, a lingüística e o seu pragmatism. Outras figuras comparecem, como Swinburne e George Meredith.

C.S. Peirce não é o único
exemplo outros mestres
bateram nos portais acadêmicos
e foram recusados entrada mas
eles são os obituários uma penalidade
paga por segurança por gramática
por escrita por Ocam tempo
e movimento não têm a
mesma definição—Commentary


(tradução de Antonio Sergio Bessa)

A história esquecida e aqui recuperada é também a de seu casamento com a figura misteriosa, de origem incerta, Juliette de Portalais. Mesmo a incerteza de seu nome transforma-se em material poético para Susan Howe, uma das representantes mais poderosas do que gosto de chamar de poética de implicações, que faz da História esquecida e oficial americanas, fonte de figuras para a sua poesia metonímica: figura como conceito da teologia cristã, FIGURA, em que um acontecimento histórico liga-se a outro acontecimento histórico, prefigurando-o, dois fatos distintos e temporalmente segregados prevendo um último acontecimento que revelaria seus significados.

Seu novo nome se é
ela mesma é Anna Ada
von Portalès nascida em
Laasow/Niederlausitz (então
Prússia) primeira de
sete filhos na prancha
5 Apendix Genealógico
Mas Ana morreu em 17 de Abril
1889 solteira será que
existe certeza absoluta
Peirce não tinha a menor ideia
que ela falava polonês entre
outra meia duzia de línguas


(tradução de Antonio Sergio Bessa)

Associada aos poetas que gravitaram em torno da revista L=A=N=G=U=A=G=E, conhecidos como language poets, estes poetas-lingüistas viriam a eleger filósofos da linguagem como Ludwig Wittgenstein (no caso de Rosmarie Waldrop) e, no caso de Howe, Charles Sanders Peirce, como referências centrais para o pensamento poético contemporâneo, assim como formalistas russos, especialmente Viktor Shklovsky, grande influência sobre o trabalho de Lyn Hejinian. É importante notar que, para Peirce, os signos precisavam ser entendidos em relação, o que o aproxima de certa forma do trabalho lingüístico-contextual de Wittgenstein, algo importante para a est-É-tica de poetas como Howe, que buscam questionar a transparência de referencialidade da escrita dos últimos séculos (especialmente masculina), com suas crenças de objetividade e universalidade, que poetas como Howe buscam minar.

Elocucionistas divergem
sobre se deveria haver
ligeira pausa depois do
sujeito de uma asserção ou
apenas silêncio a menos que
a folha seja um plano
sobre a qual qualquer grafo
possa ser escrito de propósito
—Falando na melhor veia
não sobre coisas ideias


(Howe, em tradução de Antonio Sergio Bessa)

Dois volumes de poemas de Howe têm títulos bastante aptos para a compreensão de algumas de suas preocupações obsessivas: Secret History of the Dividing Line (1978)
e Articulation of Sound Forms in Time (1987), este último ecoando alguns dos escritos de Peirce, como em "On Time and Thought". Ocupando-se de "histórias secretas" ou submersas na historiografia norte-americana, muitas vezes condicionada por elementos raciais e de gênero, Howe é uma poeta-historiadora. Se pensamos na proposta de Pound, de que o "épico" é um poema que inclui História, então Howe é hoje uma das grandes poetas épicas dos Estados Unidos. Há uma ressalva a se fazer, no entanto, o que nos leva a um dos cernes do questionamento político de sua escrita: enquanto o épico passou a ser identificado por suas qualidades formais de narrativa mítica e fundacional de um povo, com elementos cosmogônicos, Howe passou a se dedicar à reavaliação da recepção crítica de certos indivíduos da história sempre elíptica, fornecendo elos esquecidos, especialmente em figuras femininas e suas relações com o discurso masculino e seus tutores, como vemos em My Emily Dickinson, na relação da poeta de Amherst com seu "mentor" Thomas Wentworth Higginson, contextualizando seus escritos em relação (sempre em relação, na poética de implicações que Howe segue) a autores de outros períodos na Nova Inglaterra, como Cotton Mather (1663 – 1728).

No entanto, algumas das referências propriamente poéticas para o trabalho de Susan Howe são os épicos de Ezra Pound (The Cantos), William Carlos Williams (Paterson, mas também o volume In the American Grain) e Charles Olson (The Maximus Poems), os pais-fundadores com os quais ela passaria a debater e também a questionar. Ao mesmo tempo, as poetas Emily Dickinson e Gertrude Stein são eleitas como matriarcas de sua poética.

O trabalho de Susan Howe chega ao Brasil com atraso, mas em um momento bastante interessante para a contribuição que sua poesia pode trazer, especialmente para o debate sobre a historicidade do fazer poético e a possível dissolução de um conceito equivocado como trans-historicidade, propagado com força, entre outros, pelo manifesto do poema-pós-utópico de Haroldo de Campos, em um de seus textos mais condicionados às contingências ideológicas do poeta paulista, e uma das peças críticas mais fracas de sua importante produção, baseada em contradições que minam por completo sua tentativa de narrativa crítico-teleológica. A mera tentativa de discurso diacrônico-linear do "ensaio", criando um bloco monolítico e homogêneo para um suposto Alto-Modernismo singular, e tentanto impor uma descrição generalizante para o período do pós-guerra, assim como a leitura questionável que faz do texto de Hans Robert Jauss, demonstram as falácias do hoje famoso e influente ensaio "Da morte da arte à constelação: o poema pós-utópico", sendo usado com frequência por poéticas que buscam escapar do dificílimo trabalho de compreender como a poesia pode ser, ao mesmo tempo, documento histórico e estético, preferindo criar a velha oposição entre o condicionado das ideologias e o incondicionado das estéticas. O autor do texto compõe um exemplo de diacronia crítica, iludindo-se na crença de estar defendendo uma abordagem sincrônica do trabalho poético: o que é dito e o que é feito, neste texto de Haroldo de Campos, estão simplesmente em descompasso. O interessante, no entanto, é buscar compreender o que esta aparente contradição pode ensinar-nos sobre a natureza da relação entre estes dois termos - sincronia e diacronia - expondo-os menos como exclusão binária, do que um exemplo daquilo que eu gostaria de chamar de maré conceitual. A dicotomia é ilusória e, ainda que H. de C. demonstre perceber este fator, ele escolhe, de forma consciente, cair na armadilha.

Pode parecer arbitrário trazer o texto de Haroldo de Campos para esta apresentação de um trabalho específico de Susan Howe, mas é interessante notar a maneira como Antonio Sergio Bessa inicia sua introdução ao volume:

Durante os meses em que me dediquei a traduzir uma
série de poemas e ensaios de Haroldo de Campos para uma
edição de sua obra pela Northwestern University Press,
nos Estados Unidos, por vezes lhe telefonava para discutir
possíveis soluções para asminhas versões ou para esclarecer
referências mais obscuras em seus textos. Essas conversas
inevitavelmente levavam a discussões mais amplas sobre
poesia, no Brasil e no estrangeiro, e um dia, quando mencionei
que planejava traduzir Susan Howe ele respondeu
entusiasmado: “Ela é a maior poeta nos Estados Unidos
no momento.” E complementou dizendo: “Ela, também, é
uma poeta concreta!” Meses depois, tive a oportunidade
de comparecer ao lançamento de um livro de Susan,
The Midnight (2003), e lhe pedi que assinasse duas cópias;
uma para mim e outra para o Haroldo. Da próxima vez
que lhe telefonei, ele agradeceu a remessa e corrigiu seu
pronunciamento anterior: “A poesia dela não é exatamente
concreta, mas tem na verdade uma influência muito forte
de Duchamp.”

(Antonio Sergio Bessa, in Pierce-Arrow, SP: Lumme Editor, 2009)

Ainda que este não seja o espaço para retomarmos esta discussão, pareceu-me interessante e relevante como Haroldo de Campos lia o trabalho de Howe. Eu acredito que o debate em torno da historicidade do poético é hoje um dos mais relevantes cismas das poesias brasileiras contemporâneas, dividindo-se em comunidades múltiplas de poetas, muitas delas guiando parte de suas est-É-ticas a partir do eixo de sua relação com esta questão. O trabalho de Susan Howe convida a este debate.

O que é certo é que Antonio Sérgio Bessa entregou-se a um difícil e intenso labor de tradução e recriação dos poemas de uma autora que usa ao máximo as possibilidades de composição da língua inglesa. É um volume realmente importante, e é impensável que os jovens poetas brasileiros percam esta oportunidade de aproximar-se do trabalho de Susan Howe, uma das mais importantes poetas contemporâneas em atividade.

Tenho a esperança de que outros volumes de Howe, seja pela Lumme ou outros editoras, possam vir à luz no Brasil, em especial os belos e importantes Pythagorean Silence (1982), relançado mais tarde, com os volumes Defenestration of Prague e The Liberties, em The Europe of Trusts (1990), e o já citado My Emily Dickinson.

--- Ricardo Domeneck

§

Reproduzimos abaixo, com a permissão gentil do tradutor Antonio Sérgio Bessa e do editor Francisco dos Santos, quatro poemas da sequência que encerra o volume Pierce-Arrow, chamada "Rückenfigur":


Quatro TEXTOS DE SUSAN HOWE
da série "Rückenfigur", em tradução
de Antonio Sergio Bessa


Em Tintagel Iseult apruma-se
no meio da escada a meio
simbolismo chiaroscuro
Revelaria ela o matiz fónico
humano por marginália o
amor mêdo atração relutante
cansaço bruto real
fato predestinado pela
queda fobia sem diálogo
Tintagel miséria de filosofia
aqui óbvia mudança aqui
mudança vem como crua
onda adorno determinista
Sua alma sua vala

§

Falsa Iseult porém Iseult
aux Blanches Mains
à escuta pelas portas
Ideia de abertura mórbida
a alma tem duas faces igualmente
a mãe de Iseult e a outra
Iseult, Rainha mais tarde em T
Tros também ecoa a doença
de Tristão via etimologia
espúria Tintangel de Fo não
cidade noturna moribunda
Barreira a meio Lógica
eis aqui a porta e além
eis a vela que ela espia

§

Tristran Tristran Tristrant
Tristram Trystran Trystram
Tristrem Tristanz Drust
Drystan nomes que conjuram
a doce auréola da vitória
sonho sobre a paisagem
Tintagel fonte ícone lume
Bosque ramo vento breu grotto
salubre testimônio Iseult sal
Iseult Isolde Ysolt Essyllt
noiva de Março Marc Mark em
antigos comentários françêses
tua correspondência secreta
Doce Iseult duas Iseults uma

§

Das identidades assumidas por
Tristão a terceira é dupla
seu disfarce como rouxinol
em Tros e selvagem em Fo
Plana e bela La Blanche
Lande de disfarce episódios
o jardim noturno de Tros
Fo lembra a cena em Ovídio
Orfeu abatido pela perda
de Eurídice senta-se à
margem do rio sete dias
Vejo sombra na água—Mark
vantagem moral sobre Iseult a
relação entre David e Saul

§

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