
§
Arte longa, vida breve.
por Antônio Moura
Madagascar, na época do nascimento de Jean-Joseph Rabearivelo, nome artístico posteriormente adotado, é uma colônia francesa e as classes dominantes, arruinadas, subsistem em convivência com os poderes estrangeiros, que já dominavam, durante todo o século anterior, os valores tradicionais da ilha, a grande Ilha Vermelha.
Filho natural de uma jovem protestante de sobrenome Rabozivelo e descendente de uma casta real empobrecida, a dos Zanadra Lambo, Jean-Casimir Rabe, seu nome verdadeiro, teve o apoio financeiro de um tio católico, que proporcionou-lhe os estudos. Sua vida acadêmica, porém, foi curta: iniciou seus estudos nos Irmãos das Escolas Cristãs, passando em seguida ao Colégio Saint-Michel, de orientação Jesuíta, do qual é expulso aos treze anos, finalizando sua trajetória escolar num liceu público, onde passa apenas alguns meses. A partir daí, converte-se em um jovem autodidata com sede de erudição em contra-posição ao ambiente miserável que o cerca. Mas é preciso ganhar o sustento e, para isso, o futuro poeta trabalha, sucessivamente, como secretário, escrevente e bibliotecário. Começa então a publicar seus primeiros ensaios em revistas e periódicos, sob pseudônimos de aura romântica, como Almace Valmond ou Jean Osmé.
O ano de 1923 tem para Rabearivelo uma importância vital, por três motivos princiais:
Porque passa a trabalhar na Imprimerie de Imerina, de onde sairá a maioria dos seus livros e da qual extrairá o necessário para a sua subsistência até a sua morte. Porque passa a ser conhecido na Europa através de um artigo, em francês, sobre a poesia malgache, publicada pela revista austríaca missionária Anthropos.
Porque conhece a Pierre Camo, que, de certa forma, será para ele o que o professor Georges Izambard foi para Rimbaud, incentivando-o, amparando-o, introduzindo-o nos salões artísticos e atualizando-o em relação ao que se havia feito e se estava fazendo na França.
A partir desta época aparece a primeira parte de sua obra, mais precisamente de 1924 a 1930, com La coupe de cendre (1924), Silves (1927), Volumes (1928) e L´interference, uma novela sobre a sociedade colonial, publicada apenas postumamente, em 1988. Quanto aos poemas, no entender de Juan Abeleira, são ainda estilisticamente concebidos sob a influência insidiosa da escola parnasiana, mas onde já se pode rastrear ao menos duas das maiores preocupações essenciais de Rabearivelo: o culto dos antepassados e a exaltação da legendária Larivo.
Obras que, na interpretação de H. Mariol, traduzem a luta interior do homem de letras ocidental em que Rabearivelo tinha se tornado e do indonésio que mantinha preservada a herança de seus ancestrais. 1924 é também o ano em que começa a escrever os Calepins Bleus (Cadernos Azuis), célebre diário escrito até mesmo o dia da sua morte. Rabearivelo casa-se em 1926 com Mary Razafitrimo, uma de suas alunas particulares, que, posteriormente, lhe dará um filho e quatro filhas. Ainda que até nós tenha chegado a imagem de um Rabearivelo muito carinhoso com a sua progênie, parece que a relação entre o poeta e sua mulher não foi o que se possa chamar de harmoniosa. E, possivelmente, o principal motivo disso tenha sido a crescente adesão de Rabearivelo ao ópio. Droga a que recorreu mais como um bálsamo às sua dores de corpo e de alma do que como fonte de inspiração, ainda que este fizesse parte de um suposto projeto poético e espiritual próximo ao da vidência
rimbaudiana.
Então, a partir de 1929/30 sua vida vai decaindo sem parar, ao passo que, paradoxalmente, sua obra vai se elevando. O tema do mais-além, para citar ainda uma vez mais Juan Abeleira, torna-se, aos poucos, uma obsessão que resultará fatal, somando-se um interesse real, não apenas literário, por astrologia e ocultismo e todo o tipo de excessos que acabam por minar-lhe a saúde, já originariamente precária, pois era asmático. Uma série de acontecimentos trágicos começam então a acumularse
ao seu redor, até que a morte de sua filha Voahangy, em 1933, provavelmente causada por negligência de um médico, transtorna-lhe profundamente.
Para Jean-Joseph Rabearivelo, 1937, o seu último ano de vida na terra, é uma sucessão de desilusões e amarguras: sua saúde declina a cada dia, assim como fica também cada vez mais difícil conciliar-se com a vida cotidiana no ambiente castrador da colônia; o governo nega-lhe, às vésperas, uma viagem prevista à Exposição Universal em Paris, onde um bailarino, Serge Lifar, iria interpretar sua cantata Imaitsoalana; as dívidas
acumulam-se e os credores o levam aos tribunais, onde é declarado culpado.
Diante deste quadro, tenta, num recurso desesperado, acrescentar mais dinheiro aos seus rendimentos solicitando um posto de funcionário público, mas a administração o recusa, por não possuir nenhum título oficial. Dois dias após a esta tentativa frustrada, no dia 22 de julho, o poeta escreve a última página do seu diário e suicida-se, ingerindo dez gramas de cianureto.
§
DOIS POEMAS DE JEAN-JOSEPH RABEARIVELO
em tradução de Antônio Moura e originais em francês
(incluídos no volume Quase Sonhos, publicado pela Lumme Editor)
O boi branco
Esta constelação em forma de cruz, é ela o Cruzeiro do Sul?
Eu prefiro chamá-la Boi-branco, como os Árabes.
Ele vem de um parque que se estende às margens da noite
e se enfurna entre duas Vias Lácteas.
O rio de luz não tem aplacado sua sede,
e ei-lo que bebe avidamente do golfo das nebulosas.
Sendo um efebo cego nas regiões do dia,
ele nada tem podido acariciar com seus cornos;
mas, agora que as flores nascem nas pradarias da noite
e que a lua brota de um salto como um touro,
seus olhos recobram a visão, e ele parece mais forte que os bois azuis
e os bois selvagens que dormem em nossos desertos.
Le boeuf-blanc
Cette constellation en forme de croix est-elle l’Étoile du Sud?
Je préfère l’appeler Boeuf-blanc, comme les Arabes.
Il vient d’un parc s’étendant au bord du soir
et s’engage entre deux voies lactées.
Le fleuve de la lumière ne l’a pas désaltéré,
et le voici qui boit avidement au golfe des nébuleuses.
Etant un éphèbe aveugle dans les régions du jour,
il n’a pu rien y caresser avec ses cornes;
mais, maintenant que des fleurs naissent aux prairies de la nuit
et que la lunes les broute en bondissant comme une taure,
ses yeux recouvrent la vue, et il paraît plus fort que les boeufs bleus
et les boeufs sauvages qui dorment dans nos déserts.
§
Ler
Não faças ruído, não fales:
vão explorar uma floresta os olhos, o coração
o espírito, os sonhos...
Floresta secreta, porém palpável:
floresta.
Floresta de rumoroso silêncio,
floresta onde se refugiou o pássaro que se prende à laço,
o pássaro que se prende à laço, que faremos cantar
ou que faremos chorar.
Que faremos cantar, que faremos chorar
o lugar de seu nascimento.
Floresta. Pássaro.
Floresta secreta, pássaro oculto
em vossas mãos.
Lire
Ne faites pas de bruit, ne parlez pas:
vont explorer une forêt les yeux, le coeur,
l’espirit, les songes...
Forêt secrète bien que palpable:
forêt.
Forêt bruissant de silence,
forêt où s’est évadé l’oiseau à prendre au piège,
l’oiseau à prendre au piège qu’on fera chanter
ou qu’on fera pleurer.
A qui l’on fera chanter, à qui l’on fera pleurer
le lieu de son éclosion.
Forêt. Oiseau.
Forêt secrète, oiseau caché
dans vos mains.
§
§
§
Antônio Moura nasceu em Belém do Pará, em 1963, onde ainda reside e trabalha. Poeta, letrista, roteirista de cinema e vídeo. Publicous as coletâneas Dez (1997), Hong Kong & Outros Poemas (1999) e Rio Silêncio (2004).
Sem comentários:
Enviar um comentário