Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Barbara Kruger


Barbara Kruger nasceu em 1945 em Newark, estado de New Jersey, nos Estados Unidos. Estudou com os artistas Diane Arbus e Marvin Israel na década de 60, envolvendo-se mais tarde com poetas nova-iorquinos, o que passa a conduzir seu trabalho visual e em design para uma preocupação sobre o uso (e abuso) da linguagem pelas estruturas políticas de poder. Seu trabalho é geralmente estudado ao lado de outros artistas visuais da linguagem, como Jenny Holzer, Gary Hill e Pierre Huyghe.

A partir do trabalho dos poetas ligados ao Cabaret Voltaire e à revista DADA, assim como no caso de grupos experimentais do pós-guerra como os Lettristes parisienses, o Grupo de Viena, o grupo Noigandres ou a Internacional Situacionista, as fronteiras estabelecidas entre gêneros, que imperaram principalmente nos séculos XVIII e XIX, começam a se desfazer. O contexto de apresentação de um trabalho passa a significar algo no processo epistemológico e de diálogo entre artista e público. Mesmo a obra de arte aberta apresenta-se em contexto. Os exemplos são práticos: apresentar poemas sonoros de Henri Chopin em um festival de música experimental, ou em um festival de poesia, passa a ter consequências diversas em sua recepção. O mesmo pode ser dito sobre o trabalho de artistas visuais trabalhando com a linguagem, como Barbara Kruger e Jenny Holzer, ou de poetas-escritores como Augusto de Campos e Sebastião Nunes. O que faz de Arthur Bispo do Rosário um "artista visual" ao tecer seu "Manto para conhecer Deus", e de Ricardo Aleixo um "poeta" ao tecer seu "Poemanto"? Os trabalhos terão efeitos distintos se encaixados em gêneros distintos, que carregam condicionamentos de leitura.

Poesia hoje, se apresenta multiplicidade, não se trata apenas de multiplicidade de "estilos de escrita", mas de pesquisas est-É-ticas que levam alguns poetas à performance, outros à escrita, alguns à poesia sonora ou, em casos interessantes, a uma tentativa de união de todas estas práticas. No entanto, uma preocupação multimídia ou intermídia leva-nos a borrar fronteiras que se tornam cada vez mais indistintas. Reivindicar o trabalho de Barbara Kruger como poesia, em uma revista dedicada ao trabalho poético, não é mera polêmica ou "vanguardismo". Barbara Kruger cria peças em que investiga e usa não apenas a função poética, aquela que, Jakobson alertou, não deveria ser confundida com o trabalho poético (ou que este não deveria ser exclusivamente analisado por aquela), mas peças em que usa a materialidade da linguagem para nos conscientizar do que há de subreptício na linguagem do poder, expondo o que ocorre, por exemplo, na função linguística que Jakobson chamou de conativa. Mesmo aqui, notamos um trabalho material que não pode ser explicado apenas pela função poética, mas nem por isso nos impede de ver o trabalho de Barbara Kruger como um trabalho com a materialidade da linguagem e, portanto, também poesia.

--- Ricardo Domeneck

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TRABALHOS DE BARBARA KRUGER







2 comentários:

Héber Sales disse...

Caro Domeneck, ao citar o papel do contexto na interpretação da obra aberta, você me lembrou do conceito de comunidade interpretativa. Para mim, tem tudo a ver. Para mim, nossos condicionamentos de leitura vêm de nossa socialização em tais comunidades (de sermos a corporificação de uma "forma de vida", de um certo "sistema de símbolos"). Muito bom o teu texto. Abraços.

modo de usar & co. disse...

Caro Héber,

bem lembrado. Creio que ainda imaginamos um receptor imaginário e individual ao analisarmos o processo de interpretação e exegese. Ao mesmo tempo, as pessoas têm um medo esquisito da idéia de "condicionamento", como se nossa socialização e participação em um sistema comunitário de símbolos fossem uma afronta ao indivíduo. Parece-me óbvia a interação que ocorre. Lembro aqui de Wittgenstein dizendo que "imaginar uma nova língua seria imaginar uma nova vida".

Abraços,

Domeneck