Guido Cavalcanti nasceu em Florença, acredita-se que por volta do ano de 1250. Era de uma importante família florentina, dos chamados Guelfos brancos, arruinada pelas batalhas entre as facções políticas dos Guelfos e Guibelinos. Seu pai, Cavalcante de'Cavalcanti, comparece no Inferno de Dante, condenado à tormenta por heresia. Se Dante chamou Arnaut de il miglior fabbro, a Guido ele viria a chamar de mentor. O poeta tem uma obra exígua, mas importantíssima, reunida no volume Rime.Mas não se trata de reverência pela autoridade canônica de Guido Cavalcanti, ou por ter sido chamado de mentor pelo infalível Dante. A poesia de Cavalcanti mantém-se viva, e é um exemplo e modelo imprescindível para o que temos chamado de poesia tesa, talvez até mais que densa ou concreta. Trata-se de uma textualidade em que sobrevive o equilíbrio trovadoresco, de harmonia entre escritura e oralidade, concretude e meditação, precisão e sensualidade.
Assim como dedicamos um ciclo crítico ao poeta latino Caio Valério Catulo, uma das fontes da est-É-tica que temos seguido, iniciamos hoje um ciclo crítico sobre Guido Cavalcanti, para o qual convidamos alguns poetas contemporâneos brasileiros, dedicando cada qual, à sua maneira e a partir de seu próprio trabalho poético e crítico, uma meditação sobre a atualidade de Guido Cavalcanti para o nosso contexto, elegendo-o também como nosso mentor.
Abre o ciclo crítico o poeta paulistano Dirceu Villa (n. 1975).
--- editores da Modo de Usar & Co.
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Cavalcanti, vulgaris excellentiam
por Dirceu Villa
Não devemos pensar em arte antiga — especificamente, poesia antiga — num sentido antiquário, museológico, como se devêssemos montar um altar para uma obra imóvel em nós, decorativa ou encerrada. É óbvio que a crítica & os historiadores devem localizá-la, que o rigor na leitura do modo de produção de um texto, sua forma & vocabulário, é fundamental para se entender o que o texto foi planejado para desempenhar, de modo a que não leiamos o que não esta lá, ou não impregnemos um texto, desfigurando-o, com o vício do nosso temperamento & expectativas.
Mas é preciso também perceber que o texto tem uma vida própria, que o duplica: se a história o tem como algo determinado por condições de espaço & tempo, ele deve ter, para ser arte, alguma espécie de atemporalidade. Textos que são apenas história nos dizem algo que lhes é alheio, ou que, sendo tudo o que são, evaporam no circunstancial de sua fatura. Naquelas duas vidas — uma rigorosamente condicionada por sua produção, & outra latente, à espera do novo leitor que o redescubra vivo— é que está a arte, ou a poesia. Se lemos poesia como peça de museu, é letra morta; se por outro lado ignoramos o que o poeta fez, & pomos nossas idéias em sua boca, é letra morta.
Escrevo isso pelo motivo de que, ao abordarmos a poesia do florentino Guido Cavalcanti (c.1250-1300), ambas as coisas são exigidas: leremos Cavalcanti melhor & com mais sabor se sabemos que vocabulário específico emprega, & que língua escolheu para o fazer; se sabemos que Cavalcanti escreveu pouco, & que é um dos fedeli d’Amore do Duecento, herdeiro da tradição ocitânica do trovadorismo (fin’ Amors); da scuola siciliana; de Guido Guinizzelli, il primo Guido; & poeta do dolce stil nuovo italiano (& o que significa tudo isso, além de um monte de rubricas); & amigo de Cino da Pistoia, de Lappo Gianni & Dante Alighieri: correspondente poético na troca arguta de sonetos com o autor da Commedia, & de séria reputação junto a ele, mesmo que, por motivos políticos, Dante o exilasse quando no poder em Florença; & autor das extraordinárias “Donna mi prega/ perch’io voglio dire”, “Perch’io non spero di tornar giammai” (de que T. S. Eliot se apropria no começo de “Ash Wednesday”: Because I do not hope to turn again), “Fresca rosa novella,/ piacente Primavera”, “La forte e nova mia disaventura”, “Se m'ha del tutto oblïato Merzede”, ou daquele engenhosíssimo soneto “Pegli occhi fere un spirito sottile” das variações filosóficas de sentido, linha a linha, para a palavra spirito, etc.
Lemos Cavalcanti muito melhor sabendo tudo isso, mas creio que mesmo aquele que nada souber disso & topar com seus poemas poderá constatar o irresistível apelo de seu raciocínio amoroso de coisas, a distância apaixonada de sua voz muito calculada, seu engenho poético sempre exato no equilíbrio frágil que há entre saber uma técnica & empregá-la ao ponto, sem proeza nem pobreza. E provavelmente saberá que o pequeno livro de suas Rime é um tesouro como poucos na literatura: é um daqueles livros que, focalizado uma só coisa — os desdobramentos da mente amorosa — reconduz tudo àquele ponto focal, de modo que Cavalcanti tem um só tema, mas faz o mundo caber nele.
Precioso no modo como escreveu, porque a discrição de seu método era aplicada com uma consciência de fatura que poucas vezes se repetiu. Talvez, como Ezra Pound sugere, possamos ver em John Donne (1572-1631) alguém que lhe seja par, embora Cavalcanti não tenha hilaritas, o humor que nos faz rir inúmeras vezes na poesia de Donne. Cavalcanti é sério, ou, para dizer melhor: não sério, mas impõe uma distância com sua voz, onde o humor de Donne nos aproxima (quando escreve For God's sake, hold your tongue, and let me love, ou quando desenvolve seu sagacíssimo argumento amoroso em “The Flea”, ou quando nos Holy Sonnets pede a Deus, ravish me, para que seja casto, & para que o Outro não o tome como cidade usurpada). Mas o engenho filosófico de ambos — para nem dizer a extrema habilidade do verso — feito sabiamente de coisas, é muito semelhante: ambos raciocinam, mas sem que o raciocínio esmague a poesia. Isso talvez exija uma explicação.
A poesia é feita de coisas. A abstração, sobretudo a filosófica, não é poesia, porque tira o foco do poeta & o põe a discursar sobre, ao invés de figurar. E a poesia é uma arte esguia, delgada, escapadiça, é aquele mínimo foco que custa atingir, & nada mais. Discursar é um meio mais simples de escrita, muito mais disseminado por esse motivo, & muitos poetas cedem a esse enfraquecimento do engenho quando são inteligentes, por pensar que a inteligência pode suprir a poesia. E não pode (outros cedem não pela pressão da inteligência, que não têm, mas por confundir poesia com o mero encadeamento de palavras).
Sem a inteligência, a poesia é, na melhor das hipóteses, mero som; com ela, é a arte fina que lemos nas baladas, sonetos e canções de Cavalcanti. Devemos ser capazes de ler a arte? Devemos, se estamos lendo poesia. Do contrário, leremos nada mais que opinião ao som de música. Um soneto:
SONETTO IV
Guido Cavalcanti
Chi è questa che vèn, ch'ogn'om la mira,
che fa di clarità l'aer tremare
e mena seco Amor, s' che parlare
null'omo pote, ma ciascun sospira?
O Deo, che sembra quando li occhi gira,
dical' Amor, ch'i' nol savria contare:
cotanto d'umiltà donna mi pare,
ch'ogn'altra ver' di lei i' la chiam' ira.
Non si poria contar la sua piagenza,
ch'a le' s'inchin' ogni gentil vertute,
e la beltate per sua dea la mostra.
Non fu s' alta già la mente nostra
e non si pose 'n noi tanta salute,
che propiamente n'aviàn conoscenza.
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SONETO IV
Quem é esta que vem, que cada um mira,
que faz de claridade o ar vibrar
e traz consigo Amor, tal que falar
homem algum pode, e apenas suspira?
Ah, Deus, que olhar é esse que admira,
diga o Amor, que eu não vou saber contar:
tem tanto de humildade, dama ímpar,
que as outras perto dela chamo ira.
Não me poria a contar sua gentileza,
a ela se inclina toda virtude,
e a beleza, como sua deusa, a empossa.
Nunca foi tão alta a mente que é nossa,
nem já foi posta em nós tanta saúde,
que prontamente a tomem na inteireza.
Ler a arte de um poeta como Cavalcanti é estar atento ao modo como escolhe seus sons, como encadeia sua visão em uma série de hipóteses que buscam apreendê-la. Isso é especialmente verdadeiro no caso do Soneto IV: nele, Cavalcanti nos anuncia sua visão, a mulher cuja luz que projeta faz tremer o ar & as palavras de seu verso repleto da vogal mais clara, sempre aberta, & em todos os acentos: che fa di clarità l’aer tremare.
Essa visão buscará ser dita, a partir daí, em alguma espécie de figuração, de que o soneto constituiria o esforço: atribui à dama um poder divino, venusino, o de trazer consigo o Amor; ela desfaz a palavra dos homens em sopro (&, embora a voz neste poema insista em não saber dizê-la, vai prosseguir tentando); ela é humilde, gentil, virtuosa & bela, & perto dela as outras mulheres chiam’ira, “chamo ira”, isto é, não passam de uma breve loucura, como os antigos definiam a ira: ira furor brevis est, em latim, no oposto da permanência que a emparelha com a verdade; elenca os poderes dessa dama filosófica por ser incapaz de dizê-los, & confessa que tanto mente como corpo não podem restituí-la, platonicamente propondo-a como a figuração inefável da idéia — um lugar-comum da poesia amorosa que será desempenhado de vários modos engenhosos, como Camões o fará em, por exemplo, “Amor é fogo que arde sem se ver”.
Creio que o que essa paráfrase com um mínimo de comentário nos diz imediatamente é que, para apreciarmos esse poema de um modo superficial, bem pouco se exige além de atenção & curiosidade. O modo como Cavalcanti comprimiu seu imenso complexo na arte de dizer fez dele um emblema que se pode portar, quem quer que sejamos, onde estivermos. Da mesma forma, Cavalcanti não foi lido de modo ortodoxo por poetas que o leram como poeta. Se Ovídio sabia — com uma tradição que o antecede — que apenas o que muda permanece, podemos dizer da permanência de Cavalcanti na mudança a que passa sempre que alguém o relê & encontra nele não a si mesmo, mas um outro na medida exata entre ambos. Para encerrar, ponho meu encontro com Cavalcanti abaixo, onde meu enorme apreço por ele vai celebrado no amálgama em que refundi (ou desvirtuei) a “Ballata I”.
Gaudete.
D.
PS: a propósito de coisas antiquárias, o título em latim deste artigo vem do pequeno tratado de poética, escrito por Dante, o De Vulgari Eloquentia [Da Eloqüência Vulgar, isto é, da língua vernácula], e significa, claro, “a excelência do vulgar”. Dante diz, naquele passo, que apesar de muitos toscanos fazerem de sua língua um turpiloquio, alguns, a seu ver, atingiram o nível de excelência. Entre os pouquíssimos (no qual Dante orgulhosamente se incluía), estava Cavalcanti.
pseudocavalcanti
Dirceu Villa
porque de dor convém
cobrir meu peito
e do prazer sentir a flama ardente,
direi como perdi o meu tesouro
e o desvirtuei
até o presente.
eu digo que estão mortos meus sentidos;
no peito muita guerra, e amor tão pouco
que se para mim morrer
só fosse um jogo
faria amor sofrer meu sofrimento.
mas na fúria do tempo em que me encontro
mudo agora minha frágil condição:
se já não mostro o quanto sinto
(nem tento),
é que uma dama cruzou meu coração
e levou toda esperança como um vento.
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Dirceu Villa nasceu na cidade de São Paulo, em 1975. Sua primeira coletânea de poemas foi publicada em 1998, intitulada MCMXCVIII (São Paulo: Selo Badaró, 1998). Publicou ainda Descort (São Paulo: Hedra, 2000) e o mais recente Icterofagia (São Paulo: Hedra, 2008). Escreve com frequência no Demônio Amarelo..
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