Sexta-feira, 30 de Março de 2012

"Repentistas, líricos e trovadores: Cátia de França", por Reuben da Cunha Rocha



Repentistas, líricos e trovadores: Cátia de França
por Reuben da Cunha Rocha, especial para a Modo de Usar & Co.

Frequentemente o passeio pela experiência criativa dos anos 70 nos depara c/ uma série de artistas que operam no cruzamento de vetores diversos, deglutindo poéticas díspares, criando sem compromissos de campo, contaminando uns aos outros reciprocamente, sem casamentos. Um momento, certamente não o único, de tensões e sínteses tão radicais que nenhum balanço de época daria conta, pois que cada indivíduo significa a sua própria linguagem.

As notas que seguem são um convite p/ uma caminhada pelos jardins dalgumas figuras das mais produtivas que atuaram nessa época, o que não quer dizer que apenas nela. São atacantes da arte experimental do período, a quem o vetor da poesia alimentou pelo cordel, a trova, a poesia romântica e a moderna, com liberdade sincera a ponto de agirem como se qualquer coisa fosse de fato possível. São paisagens pessoais, relâmpagos que me deram e dão eletricidade duradoura, tudo na frequência de muito frevo, baião, forró, bolero, maracatu, embolada, rock e tudo o mais.

Os sinalizadores que escolhi são Ednardo, Alceu Valença e Cátia de França. Poderiam ser outros, Moraes Moreira, Zé Ramalho, Galvão. Elomar e suas cantigas de amor e amigo. Ou Belchior, o Bertold Brecht dos movimentos migratórios, curiosa antítese do hippismo paz e amor e grande revoltado – “meu bem, não pense em paz/ que deixa a alma antiga”.

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Cátia de França nasceu em João Pessoal, Paraíbia, em 1947. Lança o disco Vinte palavras girando ao redor do sol em 1979, após um compacto duplo e diversas passagens por festivais na década de 60, quando também dá um giro pela Europa acompanhando um grupo folclórico. Sua música é rica em fusões, de folk, forró, blues e rock, sempre c/ a alta pressão rítmica e sonora do baião.

Vinte palavras girando ao redor do sol é produzido por Carlos Alberto Sion e Zé Ramalho, responsável ainda pelos viajantes solos de viola do disco, que ainda conta c/ participações de Dominguinhos, Sivuca, Elba Ramalho e Amelinha. Seguem-se Estilhaços (1980), Feliz demais (1985), Olinda (1986), Avatar (1996) e Cátia de França canta Pedro Osmar (2005).

Em entrevistas, ela costuma dizer que compõe grávida dos autores que estiver lendo, e tem destaque, de fato, a presença de figuras como João Cabral de Melo Neto, Guimarães Rosa, Manoel de Barros ou José Lins do Rego nas suas letras, mas eu diria que a força de sua poética deve igualmente à prosódia de seu “baião urbano”, ao pulso forte de suas narrativas, cinema oral da poesia. Artista plástica, multi-instrumentista, é também autora dos livros Zumbi em cordel, Falando de natureza naturalmente (infantil) e da autobiografia Manual da sobrevivência.


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POEMAS DE CÁTIA DE FRANÇA



Coito das araras// Papagaio da asa amarela/ Corre e leve esse recado meu pra ela/ Minha saudade não se rebate/ Vai no grito estrangulado do meu canto// Papagaio trombeteiro/ Meu amigo ele é um bom carteiro/ Diz pra ela que nas águas do coito/ Nasceu versos da espera na lagoa// No Coito das Araras/ Quem passa por lá não para/ No Coito das Araras/ Tudo está como sempre foi/ O gado pasta no Berra Boi/ Tudo está como sempre foi// No Coito das Araras/ É o araçá das almas/ O Zé que cantava é o sete casacas/ É a sombra do touro êia, peroba baião ê ê/ É a sombra do touro êia, timborna sertão// Ainda trago na boca, nos olhos, a visão da tua imagem/ Despenteada, sorrindo, correndo pela rodagem/ Meia distância, meia légua, légua e meia/ No fim apanhei restou a peia, légua e meia / Você correndo pela rodagem, légua e meia / Despenteada, sorrindo, légua e meia

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Quem vai, quem vem

Cátia de França - "Quem vai, quem vem" by Modo de Usar & Co.

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Os Galos// Na torre da igreja, num muro qualquer/ Em algum galinheiro, terreiro mulher/ O galo é seresta, ele é o seresteiro/ É relógio é alarme escondido num puleiro/ Ê Ê paracatum paracumbá/ Ê Ê paracatum paracumbá// Disputa na arena de vida ou de morte/ A sorte lançada no brilho do esporão/ No centro da rinha ele ganha e explode/ Numa raiva danada ele come uma galinha/ Ê Ê paracatum paracumbá/ Ê Ê paracatum paracumbá// Ciscando na areia, comendo sujeira/ O galo é algo bem marcial/ Garanhão general de penas coloridas/ Numa aposta foi cego já não há mais saída/ É triste de ver sua crista caída/ Ê Ê paracatum paracumbá/ Ê Ê paracatum paracumbá// Faísca é o nome do galo citado/ Sua fama correu por todo o estado/ O olho que é cego segura a emoção/ O inimigo comendo a poeira no chão/ Ê Ê paracatum paracumbá/ Ê Ê paracatum paracumbá

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Sustenta a pisada

Cátia de França - "Sustenta a pisada" by Modo de Usar & Co.


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Sábado, 24 de Março de 2012

Lawrence Ferlinghetti



Lawrence Ferlinghetti é um poeta norte-americano, nascido em Yonkers, estado de Nova Iorque, em 1919. É cofundador da lendária City Lights Bookstore, em San Francisco, que publicaria livros seminais dos Beats, como Howl and Other Poems (1956), de Allen Ginsberg (pelo qual seria preso e processado por obscenidade, no famoso julgamento que faria de Ginsberg e Ferlinghetti famosos) e Gasoline (1958), de Gregory Corso; assim como livros de poetas que foram precursores importantes dos Beats, como Kenneth Rexroth e Kenneth Patchen. Vale mencionar ainda a publicação pela City Lights dos livros Lunch Poems (1964), de Frank O'Hara, ou Revolutionary Letters (1971), de Diane di Prima. O próprio Lawrence Ferlinghetti se tornaria um dos mais conhecidos poetas norte-americanos do Pós-Guerra com seu volume A Coney Island of the Mind (1958). Entre suas inúmeras publicações, mencionaríamos ainda Tentative Description of a Dinner Given to Promote the Impeachment of President Eisenhower (1958), Starting from San Francisco (1961), Two Scavengers in a Truck, Two Beautiful People in a Mercedes (1968), Tyrannus Nix? (1969), The Secret Meaning of Things (1970), Open Eye, Open Heart (1973), Landscapes of Living and Dying (1980) e Poetry as Insurgent Art (2007). O poeta vive e trabalha em San Francisco.


--- Modo de Usar & Co.


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POEMA DE LAWRENCE FERLINGHETTI

Utilidades da poesia


Então, para que serve a poesia nesses nossos dias?
Qual seu uso? Qual sua utilidade?
Nesses dias e noites da Era do Capocalipse
em que a poesia é o asfalto
das estradas dos exércitos noturnos
como naquele paraíso de palmeiras no norte da Nicarágua
onde promessas são feitas nas plazas
e desfeitas nas quebradas
ou nos campos verdíssimos
da Estação de Armas Navais de Concord
onde trens blindados esmagam manifestantes verdes
onde a poesia se faz importante pela ausência
ausência de pássaros na paisagem de verão
ausência de amor nas coxas da meia-noite
ausência de luz ao meio-dia
na Casa (não-tão) Branca
Pois mesmo a poesia ruim é importante
por aquilo que não diz
por aquilo que abandona
Que dizer do sol escorrendo
pela pele da manhã
das noites brancas e das bocas sedentas
lábios ululando Lulu sem parar
e dos seres alados que cantam
e dos gritos distantes numa praia ao anoitecer
e da luz jamais vista na terra ou no mar
e das cavernas descobertas pelo homem
onde corriam rios sagrados
junto às cidades costeiras
onde caminhamos distraídos
intensamente comovidos
com o louco espetáculo da existência
todos esses animais tagarelas sobre rodas
heróis e heroínas com mil olhos
com corações corajosos e superalmas ocultas
nem aí para mitos
(Por uma vida sem mitos!
gritou Joseph Campbell
e se mandou de barco para o Havaí)
sempre impressionados por eu insistir
com esses aprumados bípedes de cara lisa
esses atores frementes
pálidos ídolos nas ruas noturnas
dançarinos extáticos no pó da Last Waltz
nesse tempo de engarrafamentos da Era do Capocalipse
onde a voz do poeta soa distante
a voz da Quarta Pessoa do Singular
a voz dentro da voz da tartaruga
a face atrás da face da raça
letras de luz na página da noite
a ávida voz da vida como Whitman a escutou
um leve riso selvagem
(quiçá a libertemos
do editor de texto da mente!)
E eu sou o repórter diário
de outro planeta
redigindo a história decadente
do Que Quando Onde Como e Por quê
dessa espantosa vida aqui
e dos estranhos palhaços que governam
com os cotovelos no parapeito
das demoníacas aterrorizantes fábricas
lançando suas sombras entrevadas
na grande sombra da Terra
no fim do tempo não visto
no supremo haxixe do nosso sonho



(Tradução de Fabiano Calixto)



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Uses of poetry
Lawrence Ferlinghetti



So what is the use of poetry these days
What use is it What good is it
these days and nights in the Age of Autogeddon
in which poetry is what has been paved over
to make a freeway for armies of the night
as in that palm paradiso just north of Nicaragua
where promises made in the plazas
will be betrayed in the back country
or in the so-green fields
of the Concord Naval Weapons Station
Where armed trains run over green protesters
where poetry is made important by its absence
the absence of birds in a summer landscape
the lack of love in a bed at midnight
the lack of light at High Noon
in the no-so-White House
For even bad poetry has relevance
for what it does not say
for what it leaves out
Yes what of the sun streaming down
in the meshes of morning
what of white nights and mouths of desire
lips saying Lulu over and over
and all things born with wings that sing
and far far cries upon a beach at nightfall
and light that never was on land and sea
and caverns measured-out by man
where once the sacred rivers ran
near cities by the sea
through which we walk and wander absently
astounded constantly
and by the mad spectacle of existence
all these talking animals on wheels
heroes and heroines with a thousand eyes
with bents hearts and hidden oversouls
with no more myths to call their own
(No more myths to live by!
cried Joseph Campbell
and went hull-down in Hawaii)
constantly astounded as I am still
by these bare-face bipeds in clothes
these stand-up tragedians
pale idols in the night streets
trance-dancers in the dust of Last Waltz
in this time of gridlock Autogeddon
where the voice of the poet still sounds distantly
the voice of the Fourth Person Singular
the voice within the voice of the turtle
the face behind the face of the race
a book of light at night
the very voice of life as Whitman heard it
a wild soft laughter
(ah but to free it still
from the word-processor of the mind!)
And I am a reporter for a newspaper
on another planet
come to file a down-to-earth story
of the What When Where How and Why
of this astounding life down here
and of the strange clowns in control of it
with hands upon the windowssills
of dread demonic mills
casting their own dark shadows
into the earth’s great shadow
in the end of time unseen
in the supreme hashish of our dream



1988

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Quarta-feira, 21 de Março de 2012

Alejandro Albarrán aproxima Sóror Juana & Jaime López em arco sonoro e sincrônico

No vídeo abaixo, o poeta contemporâneo Alejandro Albarrán, nascido na Cidade do México em 1985, aproxima em arco sincrônico dois textos de conterrâneos seus: o soneto satírico-burlesco "Aunque eres, Teresilla, tan muchacha", de Sóror Juana Inês de la Cruz (1651 - 1695), e o poema-canção "Chilanga banda", de Jaime López (n. 1954). Especial para a Modo de Usar & Co., gravado na Cidade do México a 16 de março de 2012.





Aunque eres, Teresilla, tan muchacha
Sóror Juana Inés de la Cruz

Aunque eres, Teresilla, tan muchacha,
le das quehacer al pobre de Camacho,
porque dará tu disimulo un chacho
a aquél que se pintare más sin tacha.

De los empleos que tu amor despacha
anda el triste cargado como un macho,
y tiene tan crecido ya el penacho
que ya no puede entrar si no se agacha.

Estás a hacerle burlas ya tan ducha,
y a salir de ellas bien estás tan hecha,
que de lo que tu vientre desembucha

sabes darle a entender, cuando sospecha,
que has hecho, por hacer su hacienda mucha,
de ajena siembra, suya la cosecha.


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Chilanga banda
Jaime López

Ya chole, chango chilango,
que chafa chamba te chutas,
no checa andar de tacuche
y ¡chale! con la charola,
tan choncho como una chinche
más chueco que la fayuca
con fusca y con cachiporra
te pasa andar de guarura.

Mejor yo me echo una chela
y chance enchufe una chava
chambiando de chafirete,
me sobra chupe y pachanga.
Si choco saco chipote,
la chota no es muy molacha
chiveando a los que machucan
se ven morder su talacha.

De noche caigo al congal,
-no manches- dice la changa,
al choro del teporocho
en chifla pasa la pacha.
Pachucos, cholos y chundos,
chichifos y malafachas,
acá los chompiras rifan,
y bailan tíbiri-tábara


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Alejandro Albarrán nasceu na Cidade do México, em 1985. Seu livro de estreia, intitulado Ruido, será lançado este mês na capital mexicana.






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Sábado, 17 de Março de 2012

"Travestindo-se para viver ou Nunca se falou tanto em Marianne Moore", por Cristina Monteiro de Castro Pereira


A Modo de Usar & Co. apresenta abaixo um artigo de Cristina Monteiro de Castro Pereira sobre a tradução de Augusto de Campos para poemas da norte-americana Marianne Moore (1887 - 1972).



TRAVESTINDO-SE PARA VIVER OU NUNCA SE FALOU TANTO EM MARIANNE MOORE
por Cristina Monteiro de Castro Pereira

Em matéria de tradução, há toda uma linha de pensamento, discernível em Kant, nos românticos alemães, em Walter Benjamin e em Pound , que acredita ser a crítica um desdobramento da arte e que, por isso, é necessário escolher bem o seu objeto. A crítica, assim como a tradução, permitiria ao objeto não apenas continuar vivo, sobreviver em uma outra língua ou em uma outra linguagem, mas o estimularia a desenvolver-se de outro modo, a reviver e a rever-se. Neste caso, não teria sentido nenhum, para o crítico, escolher como objeto algo a que não desse valor. A crítica negativa não cabe, quando se pensa que a crítica tem o poder de colocar em destaque e de desenvolver as potencialidades de seu objeto. Por que dar-se ao trabalho de estudar ou de esmiuçar algo que se considera ruim? A pergunta cabe mais aos estudiosos de psicologia. Voltemos à crítica literária.


Assim que vi a intradução de um poema de Marianne Moore, recentemente publicada por Augusto de Campos na revista eletrônica Musa Rara, que pode ser acessada aqui, imaginei-a como um storyboard de suas intraduções. Intradução é o termo cunhado por ele para nomear um tipo de tradução, inventada e praticada desde 1974, em que parte de um trecho de um poema, destaca-o e acrescenta a ele uma dimensão visual, transformando-se em co-autor de um novo poema. Uma tradução antropofágica que resulta em um poema-diálogo. Mas por que um storyboard?

As intraduções de Augusto são, de costume, como um único quadro. Como se, no caso do poema de Marianne Moore, só aparecesse o quadro com a parte destacada, acrescida do efeito visual. Nesse trabalho de Augusto podemos seguir seus passos para configurar a intradução – é como uma metaintradução. As fotos de Moore em positivo e negativo, que abrem e fecham o conjunto, reforçam a ideia de duplicidade, de cumplicidade e de diálogo, e ecoam as duas intraduções internas, uma em fundo preto e caracteres brancos, a intradução para o português; outra em fundo branco e caracteres pretos, a intranslation, em inglês. Uma intradução bilíngue, que mostra seu próprio esqueleto, sua dupla face, e a confirma com um jogo entre original/negativo, inglês/português, fundo branco e caracteres pretos/fundo preto e caracteres brancos.

Seguindo o caminho de um storyboard, comecemos pelo título: Marianne Morre [em três dimensões]. Então vemos a foto da poeta, uma figura intrigante, singular em seus trajes sombrios e desajeitados: Marianne Moore. Seguem-se as três dimensões (ou os três passos para uma intradução): a primeira, a tradução do poema; a segunda, o destaque de um trecho do poema; a terceira, sua intradução. No final, o negativo da foto do início.

A escolha do poema de Marianne Moore é óbvia: ele vai ao encontro do universo de Augusto, daquilo que entende por poesia. Na última estrofe, lemos:

for inspection, "imaginary gardens with real toads in them," shall we have
it. In the meantime, if you demand on the one hand,
the raw material of poetry in
all its rawness and
that which is on the other hand
genuine, you are interested in poetry.

“para inspeção, “jardins imaginários com sapos reais”, chegaremos a obtê-
la. Nesse ínterim, se você demandar, por uma via,
a matéria bruta da poesia em
toda a sua bruteza e,
por outra via, o que é
genuíno, então você se interessa por poesia.”

“Forma e alma”, responde frequentemente Augusto de Campos, quando lhe perguntam o que é tradução-arte. Certamente a resposta pode ser estendida à poesia. A bruteza da matéria, capaz de condensar o indizível a ponto de transformá-lo em si e conseguir exprimi-lo: isso é poesia para Marianne e para Augusto. E o encontro é celebrado nessa intradução.

O destaque de uma frase, no caso do poema de Marianne Moore, sobre a possibilidade de encontrar o genuíno na poesia, quando o desdém por ela nos permite ir além do Bojador, já abre várias possibilidades de leitura. Como mencionava acima, a escolha de um único trecho do poema é um passo da composição das intraduções de Augusto. Então, depois da tradução do poema, a escolha aguçada, ponto de encontro:

POETRY

I, too, dislike it.
Reading it, however, with a perfect contempt for it, one discovers in
it, after all, a place for the genuine.

POESIA

Eu também a abomino.
Lendo-a, porém, com total desdém, a gente des-
cobre ali, afinal, um lugar para o genuíno.”

Também é importante ressaltar que o destaque / condensação do poema em um de seus trechos é uma ação pró-poema da Marianne Moore: os gracejos da poesia não importam para a poesia, mas aquilo que nela é raiz: a forma mais básica é mais útil para se tocar o que há de mais precioso no poema. Ela mesma começou o movimento, destacando este terceto de seu poema como uma versão. Augusto redestaca-o. O ato da escolha e da condensação move o poema para um redizer-se, coloca o poema novamente “em ação”.

Em seguida a intradução e a intranslation não deixam dúvida: não se trata de um caso comum de tradução. Nem de poesia. Nem mesmo de um caso comum (?) de intradução. Ou seja, se importa estudar este trabalho de Augusto, a ponto de escrever uma crítica sobre ele, é necessário tomá-lo como o objeto complexo que é. Augusto transpõe os limites de Poetry. Usa o poema, abusa do poema: faz dele gato e sapato. Sacralizar a literatura é matá-la. Profaná-la é fazê-la reviver. E o poema não é mais de Marianne Moore: é de Marianne Moore e de Augusto de Campos.


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Terça-feira, 13 de Março de 2012

Mark Linkous (1962 - 2010)


Mark Linkous foi um poeta/trovador norte-americano, nascido a 09 de setembro de 1962. Seu trabalho poético-musical desaguava no projeto Sparklehorse, do qual foi líder e único membro permanente. Lançou os álbuns Vivadixiesubmarinetransmissionplot (1995), Good Morning Spider (1996), It's a Wonderful Life (2001) e Dreamt for Light Years in the Belly of a Mountain (2006). Mark Linkous suicidou-se em março de 2010. Apresento abaixo a canção "It´s a wonderful life", do álbum homônimo.




It´s a wonderful life
Mark Linkous, com a banda Sparklehorse

I am the only one
Can ride that horse
Th'yonder

I´m full of bees
Who died at sea

It's a wonderful life

I wore
A rooster's blood
When it flew like doves

I'm a bog
Of poisoned frogs

It's a wonderful life

I'm the dog that ate
Your birthday cake

It's a wonderful life



Não é fácil atingir esta intensidade lírica com tão pouco. O texto leva-nos a certa imagética dos poetas surrealistas mais delicados, como Paul Éluard e Murilo Mendes, talvez menos ligados à violência proto-expressionista de Lautréamont que à elíptica simplicidade de poetas como Edward Lear ou Christian Morgenstern. Hipóteses. Mas certamente trata-se de poesia lírica no sentido mais completo do termo, indo de sua definição técnica, digamos, de poesia musicada, até outras mais recentes entre os românticos. É trobar leu, meu senhor. A preponderância da assonância na vogal O, unida à voz delicadíssima de Linkous, dá à canção, seu texto e música, uma espécie de abertura diáfana e etérea, de quem parece querer evaporar na presença do ser amado, muito suave, até mesmo com certa exasperação, aquela de quem está se entregando. É candor, e sabemos que não vivemos em tempos nos quais isto é um valor. Para nossa perda. O jogo entre consoantes fricativas e oclusivas cria um jogo interessante entre a voz e a expiração do poeta em performance, criando uma atmosfera de certo cansaço e ao mesmo tempo alívio, com o que eu ousaria chamar de uma resignação feliz. O amor talvez deva sempre pronunciar-se por modos de articulação obstruinte?

Os dísticos são particularmente bonitos: como resistir a um poeta que se define como "a bog / of poisoned frogs", ou "the dog that ate / your birthday cake"? Sem mencionar a imagem algo aterrorizante em "I am full of bees / Who died at sea".

Fiz um pequeno exercício de reescritura, menos um tradução que uma paráfrase, tentando reconstruir o texto. É uma tradução completamente livre, que chamarei de "Paráfrase para uma vida maravilhosa segundo Mark Linkous". Mudei sua diagramação, e dísticos foram quebrados, formando tercetos e quartetos arrebentados, capengas como qualquer apaixonado.


Paráfrase para uma vida maravilhosa segundo Mark Linkous
Ricardo Domeneck

Eu sou o único domado
Para montar este cavalo
Do outro lado

Estou cheio de abelhas
Mortas sobre as telhas

Que maravilha
De vida

A minha indumentária
É o sangue de galinhas
Quando voam como águias

Eu sou um charco
De sapos
Envenenados

Que maravilha
De vida

Sou o cachorro
Que devoraria
O teu bolo
De aniversário

Que maravilha
De vida



Perdoem minha falta da elegância lacônica, como a que encontramos em Mark Linkous. Talvez uma tradução mais próxima do que Linkous fez seria:

É uma vida maravilhosa

Sou o único que pode
Montar este pônei
Lá longe

Estou cheio de abelhas
Mortas nas telhas

É uma vida maravilhosa

Eu me trajo
De sangue do galo
Que voou como os patos

Eu sou um charco
De sapos envenenados

É uma vida maravilhosa

Sou o cão que devorara
Teu bolo de aniversário

É uma vida maravilhosa



Várias letras do americano demonstram seu conhecimento poético. Outro texto que aprecio muito é "Eye pennies":

Eye pennies
Mark Linkous

I will return here one day
And dig up my bones from the clay
I buried nails and strings and hair
And that old tooth I believe was a bear's

I held my hand in the fire
It burned me down to the wires

Blood suckers hide beneath my bed
And black fumes of skin so gently bled
I slept with a cat on my breast
Slowing my heart, stealing my breath

At sunrise the monkeys will fly
And leave me with pennies in my eyes



Linkous foi um homem muito respeitado, que colaborou com criaturas como Tom Waits, David Lynch e Daniel Johnston, para citar três heróis meus. Trabalhou também com o Radiohead, com o poeta cantor Vic Chesnutt (que também se mataria, em 2009) e com P.J. Harvey.

O último projeto de Mark Linkous, antes do seu tristíssimo suicídio em março deste ano (há algo em pessoas que decidem se matar na rua, em público, que realmente me atinge em cheio e me assombra) foi uma colaboração com o produtor musical Danger Mouse e o diretor David Lynch, além de outros dez vocalistas, para criar o álbum projetual Dark Night of the Soul (2009), creio que uma referência clara ao poema místico de San Juan de la Cruz (1542 – 1591), o essencial "Noche oscura del alma".

O projeto foi conduzido por Linkous, Lynch e Burton, mas com a colaboração, em cada faixa, de seus cantores: James Mercer (The Shins), Wayne Coyne (The Flaming Lips), Gruff Rhys (Super Furry Animals), Jason Lytle (Grandaddy), Julian Casablancas (The Strokes), Frank Black (Pixies), Iggy Pop, Nina Persson (The Cardigans), Suzanne Vega, Vic Chesnutt e Scott Spillane (Neutral Milk Hotel). O álbum trazia um livro com 100 páginas da fotografia de David Lynch, em uma edição limitada, de 5000 exemplares.


--- Ricardo Domeneck


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Segunda-feira, 12 de Março de 2012

Hoje à noite, em Berlim: leitura com Black Cracker, Annika Henderson, Stine Omar Midtsæter e Ricardo Domeneck, coeditor da Modo.



Hoje à noite, 12 de março de 2012, celebrando os lançamentos de 40oz Elephant, livro de poemas de Black Cracker (New York: Bowery Books, 2012), e Ciclo do amante substituível (Rio de Janeiro: 7Letras, 2012), de Ricardo Domeneck: leitura em Berlim com os autores e seus convidados Annika Henderson (Anika) e Stine Omar Midtsæter (Easter).

Mais conhecidos na cidade por seus projetos musicais ou como DJs, hoje à noite mostram seu trabalho textual, de poesia sonora e em vídeo. Abaixo, links e vídeos dos trabalhos em som dos quatro poetas.

Black Cracker
(40oz Elephant, New York: Bowery books, 2012)
--> http://blackcracker.info/

Annika Henderson (Anika)
--> http://stonesthrow.com/anika

Stine Omar Midtsæter (Easter)
--> http://easterjesus.com/

Ricardo Domeneck
(Ciclo do amante substituível, Rio de Janeiro: 7Letras, 2012)
--> http://hildamagazine.com/ricardo_domeneck.html


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Luvinsky ATCHE (Paris Suit Yourself)
--> DJ Set


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VÍDEO SOM VOZ

Black Cracker



Tears Of A Clown by black cracker

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Annika Henderson a.k.a. Anika






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Stine Omar Midtsæter (Easter)

EASTER: Ur A Great Babe by mboss

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Ricardo Domeneck





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Sexta-feira, 9 de Março de 2012

Xue Tao (768–831)

A Modo de Usar & Co. segue hoje com a série de postagens sobre poetas chinesas da Dinastia Tang, a cargo dos tradutores Ricardo Portugal e Tan Xiao.

Xue Tao (薛濤) nasceu em Zhangan, no ano 768. De todas as poetas da Dinastia Tang, é aquela de quem temos mais poemas hoje, cerca de uma centena.


--- Modo de Usar & Co.

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Nota dos tradutores

A literatura da China tem uma longa tradição feminina. Dentre os catalogados 2.200 escritores da Dinastia Tang (618-905 d.C.), considerada o período de ouro da cultura clássica naquele país, citam-se 190 mulheres. A Dinastia Tang chinesa foi um dos momentos da história mundial em que a condição da mulher mais se aproximou de uma posição favorável na sociedade, de quase igualdade de gênero. Uma grupo expressivo daquelas artistas mulheres era formado por monjas taoístas e por cortesãs. Estas duas castas eram intercomunicantes (houve vários casos de cortesãs que se tornaram monjas taoístas e vice-versa), sendo formadas por mulheres de vida autônoma e vinculada à intelectualidade da época.

Os dez poemas abaixo são das três autoras consideradas mais importantes nessa tradição – Yu Xuanji, Li Ye, Xue Tao. Os poemas de Yu Xuanji aqui citados foram publicados em 2011, pela UNESP, em edição bilingue, com traduções, notas e prefácio preparados por nós. Os das outras duas poetas compõem antologia da Dinastia Tang que estamos preparando para publicação próxima. Feliz ano do dragão para todos!

--- Ricardo Portugal e Tan Xiao.


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POEMAS DE XUE TAO




露涤清音远,
风吹数叶齐。
声声似相接,
各在一枝栖。


Cigarras

Lavadas em orvalho notas puras
levadas pelo vento folhas juntas
somam chilro mais chilro em uníssono
e cada qual a um galho solitária


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春望词四首


(一)

花开不同赏,
花落不同悲。
欲问相思处,
花开花落时。



(二)

揽草结同心,
将以遗知音。
春愁正断绝,
春鸟复哀吟。



(三)

风花日将老,
佳期犹渺渺。
不结同心人,
空结同心草。


(四)

那堪花满枝,
翻作两相思。
玉箸垂朝镜,
春风知不知。


Canção contemplando a primavera

(I)

As flores abrem, mesmo sem apreço
as flores caem, com ou sem lamento
Se da saudade indagas, quando faltas:
quando se abrem as flores, quando caem

(II)
Colhi ervinhas, fiz um nó-do-amor
para entregar a ele, o que me entende
Da primavera enfim a dor partia
e vêm os pássaros, seu canto triste

(III)
Ao sopro do dia envelhecem as flores
Longe o momento, tão longa a espera
Nenhum laço une amor e amante
trança o vazio meu nó-do-amor

(IV)
Insuportáveis os galhos repletos,
flores demais! Saudades às pencas
Plena manhã, o espelho reflete
à primavera as lágrimas, o vento

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Sobre os tradutores:

Ricardo Primo Portugal é escritor e diplomata, graduado em Letras pela UFRGS. Está completando sete anos vivendo e trabalhando na China, primeiro em Pequim, depois em Xangai e, a partir de 2010, em Cantão (Guangzhou). Publicou: DePassagens (Ameop, 2004), Arte do risco (SMCPA, 1992), entre outros. Foi co-organizador da edição bilíngue chinês-português Antologia poética de Mário Quintana (EDIPUCRS, 2007), primeiro livro de poeta brasileiro traduzido para o chinês, com o apoio do Consulado Geral do Brasil em Xangai. Em junho de 2011, saiu, pela UNESP, Poesia completa de Yu Xuanji, edição bilíngüe da obra da poetisa clássica chinesa (Dinastia Tang), com traduções suas, em parceria com a esposa, Tan Xiao, primeira obra completa de poeta daquele país editada no Brasil, traduzida diretamente do original chinês. (ver: http://www.editoraunesp.com.br/catalogo-detalhe.asp?ctl_id=1267). No final de 2011 publica, pela editora 7 Letras, [Zero a Sem], haicais (ver: https://www.7letras.com.br/zero-a-sem.html).

Tan Xiao é graduada em Letras, com ênfase em língua inglesa e ensino das línguas inglesa e chinesa pela Universidade Zhong Nan, Changsha, Hunan, República Popular da China. Estudou português na UnB. Foi intérprete e tradutora português-chinês da Embaixada do Brasil em Pequim e trabalhou no escritório brasiliense da empresa Huawei. Atualmente, faz o mestrado em lingüística na Universidade de Línguas Estrangeiras de Guangdong (“Guang Wai”, 广外).

Quinta-feira, 8 de Março de 2012

Homenagem a Marie Colvin e Abu Hanin

Um poeta de 26 anos, Abu Hanin, e uma jornalista, Marie Colvin, na Síria: trecho do relato da organização Avaaz no início desta semana sobre a situação na cidade de Homs, especificamente no distrito de Baba Amr; e vídeo com a jornalista Marie Colvin (1956 – 2012), morta durante o sítio de Homs nos últimos dias. Encerramos a postagem com fotografias de Rémi Ochlik (1983 - 2012), fotógrafo francês que perdeu a vida ao lado de Marie Colvin, feitas na Líbia no ano passado.


"Abu Hanin is one of the heroes. He’s 26, a poet, and when his community needed him, he took the lead in organizing the citizen journalists that Avaaz has supported to help the voices of Syrians reach the world. The last contact with Abu Hanin was on Thursday, as regime troops closed in on his location. He read his last will and testament to the Avaaz team in Beirut, and told us where he had buried the bodies of the two western journalists killed in the shelling. Since then, his neighborhood of Baba Amr has been a black hole, and we still don’t know his fate."


--- Modo de Usar & Co.

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MARIE COLVIN



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RÉMI OCHLIK










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Terça-feira, 6 de Março de 2012

Das poéticas vocais: Sidsel Endresen



Sidsel Endresen é uma vocalista e compositora experimental, nascida em Trondheim, Noruega, a 19 de junho de 1952. Em 1978, ingressou na Universidade de Oslo, para estudar Antropologia e Língua e Literatura Inglesas. Começou a ficar conhecida na cena musical da capital norueguesa, apresentando-se com sua Sidsel Endresen Band. Em 1980, conhece o guitarrista Jon Eberson e passa a trabalhar com seu Jon Eberson Group. Inicia sua carreira solo em 1990, lançando os álbuns So I Write (1990) e Exile (1994). A estes seguiram-se Nightsong (1994, com Bugge Wesseltoft), Duplex ride (1998, com Bugge Wesseltoft), Undertow (2000), Out here in there (2002, com Bugge Wesseltoft), Merriwinkle (2004, com Christian Wallumrod e Helge Sten) e One (2006).

Apresentamos seu trabalho aqui no mesmo espírito crítico que nos leva a pesquisar a poesia textual + vocal dos trovadores medievais e contemporâneos, ou, como já escrevemos, uma textualidade que está presente na manifestação poética consciente de seus artifícios e também de seu contexto, tanto em sua visualidade como sua vocalidade. Sidsel Endresen integra-se à tradição oral estudada brilhantemente por Paul Zumthor, podendo ser ligada à tradição mística da glossolalia, o scat singing de Ella Fitzgerald e outras poetas vocais do jazz, o canto gutural de Tania Tagaq, assim como à tradição celta do puirt a beul, da qual uma poeta vocal como Elizabeth Fraser bebeu. Oralidade e corpo.


--- Ricardo Domeneck

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POEMA VOCAL DE SIDSEL ENDRESEN



Sidsel Endresen apresentando-se no Henie Onstad Art Centre, a 6 de setembro de 2009.


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Sábado, 3 de Março de 2012

Mordaça em escritores e leitores na Rússia: a lei que seria uma violação dos direitos humanos de tantos dos seus cidadãos


Há alguns meses, começou a ser discutido na Rússia um projeto de lei em São Petersburgo que tornaria ilegal a discussão, menção, publicação ou assembleia sobre qualquer assunto, conversa, texto ou coisa identificada como gay, transgênero ou um desvio da norma heterossexual. Apesar dos esforços de ativistas russos e internacionais, o projeto de lei foi aprovado em São Petersburgo. A situação está agora nas mãos do Governador Georgy Poltavchenko quanto à decisão de promulgar ou não a lei.

É essencial que a comunidade internacional faça pressão para que Poltavchenko não assine esta lei, lei que significaria uma clara violação dos direitos humanos dos cidadãos russos e contra uma parcela gigantesca da população do país.

A Modo de Usar & Co., revista de poesia editada por homens e mulheres, heterossexuais e homossexuais, une sua voz à dos colegas russos e internacionais para dizer: Não silenciem seus cidadãos. Não silenciem seus escritores. Não silenciem seus leitores.

Pedimos a nossos leitores que assinem a petição contra o projeto de lei e um apelo ao Governador Georgy Poltavchenko, para que esta ofensa séria contra a liberdade de expressão de milhões de pessoas não seja oficializada.

Não apenas com o músico homossexual Tchaikovsky, invocado no vídeo abaixo, mas em nome de todos os nossos companheiros russos, a terra de poetas como Mikhail Kuzmin (1872-1936) e Yevgeny Kharitonov (1941-81), escritores gays que foram silenciados por décadas no Regime soviético. Em nome de todos os nossos irmãos e irmãs na Rússia, ergamos nossa voz mesmo que isso signifique apenas doar nosso nome a um abaixo-assinado.

Pedimos aos leitores deste espaço que assinem a petição contra a lei e postem o vídeo abaixo em suas redes sociais. Homossexuais ou não, ajudem os cidadãos russos a protegerem sua voz e liberdade de expressão. Encerramos esta postagem com uma das "Canções alexandrinas" do poeta russo e homossexual Mikhail Kuzmin (que viveu em São Petersburgo), e recomendamos também a leitura dos textos de Yevgeny Kharitonov (1941 - 1981), o poeta russo que poderia ter exercido sobre a poesia de seu país influência saudável como a que Frank O´Hara teve sobre a americana, Mario Cesariny sobre a portuguesa ou Roberto Piva sobre a brasileira, se o tivessem permitido. Não silencie seus escritores gays, não silencie seus leitores gays, não silencie seus cidadãos, São Petersburgo!





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das Canções alexandrinas
Mikhail Kuzmin

Talvez me tenham concebido ao meio-dia;
ao meio-dia, talvez eu tenha nascido;
portanto gosto, desde muito cedo, do sol
que lança rútilos raios.
Mas desde que eu vi os teus olhos,
tenho ficado indiferente ao sol radioso:
por que o amaria tão só a ele,

quando dois sóis em teus olhos brilham.

(tradução de Oleg Almeida, publicada originalmente na Revista Literária em Tradução, ano II, março de 2011.)


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